Cirurgias íntimas com finalidade estética geram controvérsia entre os médicos




Pouca gente se espanta ao saber que uma atriz famosa injeta toxina na testa a cada seis meses, ou que a vizinha turbinou os seios e deslocou a gordura da barriga para o bumbum. Mas quando se fala em preencher os lábios vaginais ou reconstituir o hímen para realizar uma nova lua-de-mel com o marido, nem todo mundo reage com naturalidade. Nem mesmo os médicos, que estão acostumados a lidar com todo tipo de queixa.

Cirurgiões plásticos, ginecologistas e especialistas em sexualidade consultados pelo UOL Ciência e Saúde concordam em um ponto: quando a mulher tem um problema funcional, como a perda da elasticidade da vagina que pode ocorrer após sucessivos partos naturais, o procedimento cirúrgico é realizado sem maiores questionamentos.

Já se a mulher procurar o cirurgião apenas por uma questão estética, provavelmente vai se deparar com opiniões diferentes. Alguns médicos acreditam que é legítimo querer reduzir os grandes ou pequenos lábios vaginais porque o volume gera desconforto durante a penetração ou a atividade física. Mas esculpir ou clarear a genitália só para ficar igual à última estrela da Playboy não faz sentido para muitos especialistas, ainda que a paciente insista que a mudança vai beneficiar sua vida sexual.

"É preciso deixar claro para a paciente que, assim como acontece com seios e narizes, vulvas e vaginas têm uma variedade imensa de tamanhos, formatos e cores", afirma o ginecologista Michael Goodman, que diz realizar cerca de três cirurgias íntimas por mês em seu consultório na Califórnia. "Se depois de receber aconselhamento, às vezes até psicológico, ela continuar querendo, a decisão é dela, não é mais minha", opina Goodman.

O médico está coordenando uma das primeiras grandes pesquisas sobre esse tipo de procedimento nos EUA, que deve ser concluída no fim deste ano. O objetivo é avaliar não apenas as técnicas empregadas e possíveis complicações, mas o quanto elas beneficiam a auto-estima e a vida sexual das mulheres. Assim como no Brasil, faltam estatísticas sobre cirurgias íntimas na literatura internacional.

Ele conta que há basicamente três perfis de pacientes interessadas nesse tipo de procedimento. O primeiro é de mulheres jovens, com cerca de 18 anos, que têm vergonha do volume exibido ao colocar uma roupa mais justa. "Elas observam as modelos nas revistas, ou as colegas na piscina, e ficam constrangidas", diz. As cirurgias mais comuns, nesse caso, são a labioplastia e a lipoaspiração no púbis, ou "monte de Vênus" (esta última é procurada inclusive por homens, já que o acúmulo de gordura nessa região pode deixar o pênis um pouco escondido).

A estudante de pedagogia Elizabete, de 22 anos, faz parte desse grupo. Há três meses, ela submeteu-se à redução dos grandes lábios, por achar que eram maiores que a média. "Tinha vergonha de colocar o biquíni, aquela saliência me incomodava muito", relata. Ela diz que o incômodo da cirurgia dura apenas uma semana e que foi preciso ficar 45 dias sem relações sexuais, "mas valeu muito a pena".

Outra parcela de pacientes, de acordo com Goodman, é composta por aquelas mulheres que passaram por um ou mais partos naturais e querem corrigir os músculos do períneo ou estreitar o canal vaginal. E o terceiro grupo é de pacientes mais maduras que se queixam da flacidez dos lábios vaginais ou também da perda de elasticidade na vagina provocadas pelo tempo.

Para ele, é hipocrisia criticar a cirurgia íntima para fins estéticos numa época em que colocar silicone nos seios virou rotina nas clínicas. Mas é preciso ser cauteloso. "O médico deve gastar seu tempo com a paciente para entender o que está por trás da vontade de operar, antes de decidir se vai ou não realizar o procedimento", pontua.

Estética e prazer sexual

Muitas mulheres ficam retraídas porque não gostam de determinada característica nas partes íntimas. "Você faz a cirurgia na região genital e o milagre é no cérebro", conta o cirurgião plástico Murillo Caldeira Ribeiro, em relação ao impacto do procedimento na vida sexual de suas pacientes.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), é preciso analisar a real motivação da paciente e optar pela cirurgia apenas quando há perda funcional.

"Algumas mulheres chegam a evitar o sexo por causa do alargamento provocado por partos naturais ou pelo tempo - o pênis não permanece dentro da vagina e a penetração às vezes provoca um barulho que as deixa constrangidas", exemplifica. Mas submeter-se a uma cirurgia apenas para melhorar a aparência dos lábios vaginais, para ela, é um exagero. "A frustração, depois de um procedimento como esse, pode ser ainda maior", acredita.


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